Há quem diga que não é mais a religiao que é o ópio das massas, e sim a televisão. E dá pra ir além, afirmar que assistir a TV é o coma cerebral auto-induzido, sobre o qual nos enganamos continuamente em acreditar que temos qualquer controle. "Eu posso parar a qualquer momento" é uma frase que normalmente seria associada à um viciado em drogas pesadas, em plena negação. Se me perguntassem sobre a TV, certamente falaria a mesma coisa. Mas o mal da TV não é tão óbvio quanto o das drogas. Depois de adulto, ninguém vai te dizer pra ir lá fora brincar. A verdade é que o mal da TV é o grande tempo perdido entre os poucos momentos em que você realmente está assistindo à uma coisa muito legal. Infelizmente, em geral é só desses bons momentos que nos lembramos, por mais que os anunciantes se esforcem. A não ser por um ou outro anúncio mais bem feito, de forma geral, nós (eu pelo menos) abstraímos os comerciais. Mas pra "eles" é até melhor, fica só o conceito gravado no seu subconsciente. Se você lembrasse de cada anúncio em sí, você teria a opção de se deixar manipular, ou não.
Pra se assistir à TV hoje em dia, precisamos da mesma mentalidade do menino que se diverte o dia inteiro subindo e descendo um morro coberto de neve com o seu trenó... só que sem a parte sadia do programa. Quando perguntamos pra ele o que ele fez, ele vai responder que passou o dia inteiro descendo o morro no seu trenó, quando na verdade passou o dia inteiro subindo o morro. Ainda não fiz o teste de marcar quanto tempo passa entre cada pausa nos programas. Mas estou sériamente considerando tirar a minha televisão da tomada por um tempo, depois de ter cronometrado um intervalo comercial na GNT-- 10 minutos! Estou bem desconfiado que passamos mais tempo aturando anúncios de produtos que não nos interessam do que assistindo aos programas que supostamente queremos ver. E sempre as mesmas propagandas, ainda por cima! Inacreditável. E isso que eu trabalho com publicidade...
O que nos leva à conclusão lógica: nosso cérebro simplesmente pára de trabalhar quando entram as propagandas. No mínimo, entra em estado alpha. Com sorte, quando volta o programa, ele volta a engrenar. Mas cada vez mais lentamente. Em geral o que acontece é que a pessoa passa a pular de canal em canal, procurando algo que nem ela mesmo sabe. Provavelemente, alguma mulher bonita em um programa qualquer. Baywatch tem mais de 1 bilhão de espectadores. RAI1 só tem programas com apresentadoras bonitas falando das maiores besteiras/futilidades. É isso que gerou a geração MTV, estimula o DDA. Falta de foco, falta de interesse, falta de propósito. O propósito passa a ser esquecido, é só passar o tempo. Se o homem assistindo fosse sincero consigo mesmo, iria pra locadora alugar um pornô e fim de papo. Quem ficaria feliz com essa apatia toda seria o Samuel Beckett, maldito existencialista. Esperando por Godot, um comercial por vez.
Tem uma anedota em inglês sobre um sapo que está sentado dentro de uma panela cheia de água. Quando a panela vai ao fogo, o sapo não está desesperado com a sua morte eminente, e sim feliz porque a água está ficando quentinha... Esse é o maior problema da TV. Não dá pra ter uma noção exata de quanto tempo estamos perdendo. Mas no geral, parece que o saldo é positivo, afinal já se passaram N horas e estou aceitávelmente satisfeito. A TV se auto-valida simplesmente pelo fato de passarmos tanto tempo na frente dela. Ou seja, já que temos livre arbítrio, o fato de escolhermos passar tanto tempo alí é porque o negócio têm de ser bom!
Meu ponto é esse, então: não temos livre arbítrio quanto à TV. Os comerciais são criados com embasamento em grupos de controle, maquinados para serem quase subliminares, não invasivos. Exatamente abaixo do limite do que é irritante. Ou tão irritantes que você não esquece mais (quer pagar quanto?!). Uma vez que ligamos a TV com o propósito de "ver qualquer coisa", é ela que está no controle. "Controle remoto" em si só já é um termo sugestivo. Porque nao "trocador de canais"?
Seja como for, desde já mudo a minha postura perante o cubo negro. Primeiro, respeito. Tem que ser visto como uma droga, quase um inimigo. Quantas vezes não vi algo que gerou uma idéia genial para uma pintura, ou uma invenção, ou um desenho (a TV em toda a sua glória), só pra depois mudar de canal e me distrair. Ponto pra TV, que me deu uma ótima ideia, da qual eu não lembro mais. "Se eu quisesse mesmo, poderia fazer aquela parada. Vou fazer... assim que acabar o Seinfeld." E o tempo passa...
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