Monday, June 19, 2006

sexta de cinzas

Hoje já é sabado, mas até agora há pouco era sexta. Estou em Itu, na casa de campo do meu primo Luiz. O quarto em que estou é branco, super bem acabado, com aquela atenção primorosa aos detalhes e à limpeza que só uma Dulinsky teria. Antes de hoje eu só tinha entrado nele uma vez, pra conhecer. E mesmo assim me sinto em casa. Depois de assistir à boa parte de uma comédia pela segunda vez, é um bom fim de noite pra um dia que não foi exatamente dos melhores.

Ontem à noite a minha mãe me avisou que a mãe do meu tio morreu, e que o velório seria no dia seguinte, de manhã. Eu não conhecia ela muito mais do que socialmente, mas gosto muito do meu tio. E é evidente que o meu tio amava muito ela. Então eu também gostava muito dela, por tabela. É realmente uma pena o que acontece com uma pessoa quando ela envelhece. É muito difícil manter a dignidade. À medida que o tempo passa, a gente vai cada vez mais ficando terrestre, carnal, escravo de todo tipo de exigencia dos nossos corpos ao passo que eles vão se esgotando. Para ela, parece que foi um alívio, como é a historia de muitos velhinhos que se vão. Mas é estranho. Em sao paulo, só existe um crematório. Velórios, existem vários. E talvez por isso a experiência do velório seja tão mais fácil de assimilar do que a do crematório, mesmo que o caixão fique aberto para todo mundo ver exatamente quão vazio é o corpo depois que a alma se vai. Pelo menos a situacao é bem mais descontraida. O povo conversa, até rí de histórias que se contam pra tirar a atenção momentâneamente do foco inevitável das atenções. A mortalidade dos outros, a nossa própria, a necessidade de se fazer uma marca, de se ter um legado, deixar algo que transcenda todo esse processo tão mundano que é morrer.

O pessoal esta todo à postos em volta de um pedestal de mármore com um furo retangular no meio. Todo mundo sabe o que vai acontecer. A música começa a tocar nas caixas de som do crematório. Tenho a nítida impressão de que é exatamente a mesma música que ouví quando a minha avó morreu. Flashback pra casa fantasma da Disney, quatro anos de idade. Olho pra trás e vejo que o susto que tinha acabado de tomar foi exatamente o mesmo que o pessoal do carrinho atrás de mim tomou. Foi uma das primeiras vezes que eu lembro de ter tido a minha inocência lapidada. Talvez tenha tocado essa exata música 20 minutos atrás. Não acredito que o processo seja tão impessoal, tão banal quanto isso. Vejo a emoção das pessoas ao redor, sei que a dor que sentem é verdadeira. Mas não consigo afastar uma sensação de que a praticidade impera, que a criatividade nesse momento não existe, e que talvez seja uma coisa da qual me arrependesse. Um barulho de máquinas trabalhando. Em segundos o que parecia ser o fundo do buraco dentro do pedestal se revela um par de portas. Ao som de rangidos mecânicos, uma plataforma com um caixão em cima aparece pela abertura. É o nosso ente querido, por uma última vez. Ficamos assim alguns minutos. Não fosse pela música, seriam minutos de silêncio absoluto, que só de vez em quando é quebrado pelo choro discreto de um ou de outro. Quando o tempo esgota, a música pára, e mais uma vez ouvimos os barulhos das engrenagens. Vemos o caixão ser engolido grosseiramente pelas portas escuras. A imagem é tão agoniante, dá um desespero tão grande ao saber ser esse o último contato com essa pessoa, que mesmo não tendo conhecido a Dona J. muito bem, dá vontade de pular atrás dela, de impedir que ela se vá pelas portas. É impressionante que, especialmente sabendo que este processo vai ser repetido várias vezes ao longo do dia com familias diferentes, o único crematório de São Paulo escolhe esta imagem como a última memória que teremos da pessoa amada. No mínimo, deveriam incentivar algum tipo de personalização, pelo menos tocar a música preferida da pessoa, sei lá.

Não sei se consigo impor na nossa tão doutrinada cultura e familia o desprendimento dos mexicanos no seu "Dia de Los Muertos". Mas, apesar de concordar com a praxe de doar tudo que for doável quando morrer, e depois ser cremado, certamente não quero que os vivos tenham de passar pelo que passei hoje. E não é nem a dor da perda de uma boa pessoa que ofende (nada mais natural do que a morte eventual), e sim o despredimento emocional que nos permitímos depois de botar todos os pingos nos Is com uma despedida "come il faut", mas pró-forma, dessas. Tô quase botando no meu testamento como exigência uma cremação Viking, com direito à balsa flamejante rumo ao por-do-sol, ninfas em trajes sumários, e Tchaikovsky.

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