Tuesday, July 12, 2011

Road to Zagreb

Agora de fato entrei no territorio desconhecido da viagem. Até que a transição foi suave, já que ontem não me deram a opção de continuar no hotel U Prince, e tive de achar um outro hotel logo de manhã. Acho que no final das contas eu estava um pouco acomodado naquele hotel, entao nem achei ruim ter de trocar. Por um lado foi otimo ficar la, porque durante quatro noites nao tive de ficar fazendo check-in e check-out, checando todas as tomadas pra ver se não esqueci algum adaptador, etc., e pude curtir bem o hotel. Por outro lado, devia ter trocado pelo menos uma vez, pra variar um pouco mais a experiencia (e o preco, que estava caro demais). Acabei não tendo a experiencia do hostel em Pragal, mas, verdade seja dita, não acho que tenha sido grande perda. Por alguma razão estranha, os mochileiros desta cidade parecem todos ser de um de dois tipos: turistas sem grana nenhuma mesmo (e meio hippies), ou moleques querendo encher a cara até cair nos famosos “stag parties”.

Com o meu fiel iphone em maos, em 5 minutos descobri um hotel a tres quadras dali que tinha uma nota de 9.2 na booking.com, o Barceló, por um preco equivalente. O hotel nao tem o mesmo charme autentico do U Prince, mas mais do que compensa com um visual moderno super bem acabado, pé direito duplo, e o mais importante- um chuveiro de verdade. Por alguma razao que eu nao entendo, os europeus (que alias tendem a ser enormes) preferem um chuveirinho instalado na altura do peito na hora de tomar banho. Entre os chuveirinhos pinga-pinga e o sabao liquido que nao sai nunca, o banho acaba sendo um ritual de pelo menos meia hora, uma bela perda de tempo. Nao sei se é causa ou consequencia, mas acho que essa ducha que nao convence é o X da questao quanto ao desapego que muitos europeus (e nao só os franceses) tem quanto ao seu cheiro medieval. Ontem de manha, quando fui comprar a passagem para Zagreb (croacia), uma senhora de aspecto bem apresentavel entrou na fila atras de mim. Um segundo depois veio o cheiro dela, algo que se pudesse ser engarrafado seria classificado como arma quimica. Fui obrigado a dar uns bons tres passos pro lado, e nao teve como nao dar risada da situacao. Deus queira que eu nao encontre uma dessas numa viagem de 12 horas de trem pra algum lugar.

A estadia no Barceló foi ótima, sem grandes acontecimentos. Tentei de todo jeito marcar alguma coisa com as minhas novas amigas russas, mas elas estava hospedadas muito longe e nao deu certo, infelizmente. Tinha decidido ficar em praga mais um dia só por causa delas (já imaginando todo tipo de cenario improvável), entao fiquei um pouco decepcionado. A noite, impassivel, decidi sair uma ultima vez em praga, e fui em busca do Bhudda Bar. O bar é um lounge que atende a um publico mais seleto, mais velho, e metido a moderninho. Na pick-up, um DJ famoso fazia o som perfeito pro ambiente escuro, decorado em tons de vermelho sangue. A iluminacao é feita com muitos pontos de luz, tanto das mesas quanto dos varios lustres, e da a impressao de que o lugar é iluminado por velas. No andar de baixo fica uma estátua de laque preto do Bhudda de uns 3 metros de altura que brilha com o reflexo de todos estes pontos de luz. Ou seja, o ambiente perfeito para uma despedida da cidade dourada. So tinha um detalhe: estava as moscas. Fora uns 4 casais de mulheres bonitas com uns caras mais velhos, o lugar estava vazio! Realmente, um desperdício. Saí de lá e fui em busca de umas fatias de pizza na mesma rua. Depois de duas otimas fatias de pizza com bacon, vi que o bar ao lado estava completamente lotado. Fui averiguar...Entrei no bar e logo vi que era do mesmo estilo de todos os outros de Praga aonde tem bastante gente: basicamente, um frat party fedido, cheio de copos quebrados no chao. Como diria o Danny Glover no Maquina Mortifera, “I’m getting too old for this shit”. Fui pra casa e dormi, tranquilo.

No dia seguinte parti pra terceira etapa da viagem. A primeira etapa foi acompanhado, de Cannes a Portugal, efetivamente com familia. A segunda etapa foi em praga, e foi a parte playboy/hotel da viagem. Praga é uma cidade que está em desenvolvimento há mil anos, entao mesmo tendo passado quase uma semana inteira na cidade, saio com a certeza absoluta de que alguem vai me dizer “Que, voce nao viu X? Ah, entao voce nao foi a praga!”. A teceira parte da viagem é a estapa aonde eu nao tenho certeza de nada- desde aonde eu vou até aonde eu vou ficar, e por quanto tempo. A ideia geral é ir para a turquia, e voltar a portugal (ileso) a tempo de almocar com o Erick, jantar com a Janine e o André, e pegar o aviao pro Brasil. A ideia original era passar em vienna, serbia, Dubrovnik (na Croacia), depois Grecia e finalmente turquia. Já mudou bastante... Cancelei Vienna e Serbia, nao dá tempo de fazer tudo (e tudo é interessante!). Achei que ia pra Dubrovnik, mas a passagem era quase 600 dolares, por alguma razao bizarra. Aparentemente a historia das passagens a 7 euros da Ryan Air é tao lenda quanto as pontes aereas pro Rio de 39 reais da Gol. Grécia ficou para o “vamos ver”. Quero muito ir, mas depende da situacao do pais (que no momento está mergulhado em uma crise profunda). Esta semana o FMI garantiu um emprestimo pra grecia de 3.5 bilhoes e euros, entao semana que vem os animos por lá devem estar mais tranquilos (quando comecar a entrar a grana). De qualquer maneira, a ideia seria uma passada rapida pelas cidades maiores, e depois fazer o tour das varias ilhas, aonde mal tem gente pra protestar qualquer coisa, quanto mais pra jogar coquetel molotov.

Sai do hotel com minhas duas mochilas – uma com todas as minhas roupas e uma lendária garrafa de champagne (que eu tenho levado pra passear desde Cannes), e uma preta, menor (de 6 euros), que contem tudo que se eu perder eu to ferrado. Basicamente, uma mula de carga com aspecto de turista (peso extra estimado em 25 kg). Peguei o metro e fui pro mall Palladium atras de comida e WI-FI gratis pra poder pesquisar aonde ir. Sentei num café, pedi uma coca de 200ml na maior cara-de-pau, e fiquei la o tempo que precisei no iphone. Decidi ir de trem para Zagreb, na Croacia (100 euros). Todo mundo fala super bem da croacia, achei que nao podia perder... e chegando lá eu dou um jeito de ir pra Dubrovnik. Peguei o metro e fui pra estacao de trem comprar a passagem. Nestas horas que vemos como não falar o idioma complica tudo... Acabou dando certo, mas foi um processo meio conturbado, apesar de interessante. Geralmente o povo por aqui fala algum ingles, e tem bastante boa vontade. O curioso é quando nao tem nenhuma lingua em comum mesmo, ou a pessoa é um funcionario publico meio sem saco. Tenta aí fazer a mimica pra “Dubrovnik”.

Com a passagem em maos, fui fazer o meu ultimo tour da cidade. Em especifico, queria de todo jeito ir pra uma torre feita pelo Eiffel em cima do morro. Nao que tivesse nada de mais na torre, mas era um dos ultimos itens do checklist que eu nao tinha visto, e ja tinha passado ao lado dela 2 vezes. Seja como for, encasquetei que tinha de ir pra maldita torre. Maldita torre em cima de um morro, a alguns quilometros da etacao mais proxima, com 25 kg nas costas. Pensei em por as mochilas em algum locker na estacao, mas achei que nao valia a pena. Isso porque quando eu pensei nisso eu ja estava a varias paradas da estacao, logico. Na verdade, eu tava a fim de testar um pouco essa historia de mochila, saber até aonde era pratico/possivel carregar tudo. Hoje, por exemplo, ja sei o limite.

No metro puxei papo com duas turistas- uma inglesa, a outra australiana, ambas muito simpaticas. Papo vem, papo vai, acabou coincidindo delas estarem indo pro hotel delas a caminho da torre, entao fomos juntos, batendo papo. No caminho descobrimos um jardim gigante escondido, na frente de um predio do senado que nao dá pra ver da rua. Alias, parece que tudo por aqui ou é embaixada ou é predio do governo. Seja como for, o jardim acabou sendo uma das coisas mais interessantes por aqui, uma surpresa agradavel. Tinha incusive um aviario dentro dele com umas 8 corujas “Badu Badu” de um pouco menos de um metro de altura cada uma – gigantes e mal-encaradas. Voltamos pro hotel das duas (que era em cima do morro, logico), e tomei o melhor iced tea da minha vida, em exatos 8 segundos. Depois pedi uma segunda jarra, pra poder aproveitar um pouco, porque afinal tava bom mesmo. E ali deixei as duas (sim, logo depois do iced tea), e continuei a caminho da torre.

A caminho da torre ainda parei em uma igreja no topo do morro (depois vejo o nome nas fotos), e voltei a parar no restaurante dos monges, aonde tem algumas cervejas criadas ali mesmo. Em especial, tem uma Indian Pale Ale que eu tomei no dia do tour de segway que era realmente muito boa. Pedi um pint dessa e duas linguicas na grelha com krenas e mostarda, a esse foi o meu almoco (muito bom, por sinal). Dali passei por um parque, fotografando abelhas, esquilos e estatuas a caminho do bondinho pra subir o resto do morro (que afinal tambem nao to pagando promessa). Chegando la, mostrei o meu ticket de metro na subida pra poder andar no bondinho, e fui em direcao a torre. Na torre, finalmente, tinha de pagar de novo pra subir de elevador: 150 czech crowns. Eu so tinha 148 (a importancia deste fato é revelada mais a frente), mas o cara foi gente boa e deixou passar. Lá em cima encontrei com mais um casal de brasileiros simpaticos, o Henrique (com cara de metaleiro europeu)e a Anaine, essa sim, aleluhia, com cara de brasileira. Nao dá mesmo pra saber que alguem é brasileiro ate que voce escute essa pessoa falar portugues, é bem impressionante. Bom, desci o morro sozinho dentro do bondinho. Lá em baixo, dois fiscais me pararam e pediram o meu bilhete. Aqui tudo funciona na base da confianca – voce pode entrar no metro, bonde, etc. sem pagar. Mas, se o fiscal te pega, é uma multa de 1500 crowns, ou, segundo o fiscal, 30 euros . Eu, me achando muito honesto, comprei o bilhete pra andar no metro, e fiquei contente de saber que ainda funcionava pro bondiho tambem. Só que nao me liguei que tinha um limite de tempo... Seja como for, o bilhete nao valia, e eu nao tinha o dinheiro. Aí os dois desataram a conversar: ”xxxxxx, xxxxxx, xxxx, policie, xxxx, xxxx...”. Que beleza.... A poucas horas de ir pra croacia, e me aparece uma dessas. Procurei na mala tudo que era moedinha, acabei juntando sofridamente 23 euros e uns crowns, pus a minha melhor cara de turista desamparado, e gracas a deus os caras se compadeceram e fizeram vista grossa. Uuuuuuuu, na traaaave! Inclusive, apesar de eu oferecer, nao levaram os 23 euros. Nota mental: tokens europeus tem limite de tempo.

Andei até um ATM (a uns 2 km dali), peguei dinheiro, e fui esperar na estacao antes que mais alguma coisa estranha acontecesse. A passagem para Zagreb era ininteligivel, a coisa mais confusa do mundo. Chequei 3 vezes o horario, o trem, etc., mas a sensacao de inseguranca, da certeza de que algum numerozinho daqueles queria dizer “terminal do outro lado da cidade” era inescapavel. Seja como for, ainda faltavam 2 horas até o trem. Tomei uma coca grande, e de repente a minha proxima missao ficou bem clara: achar um banheiro. Detalhe curioso: a estacao nao tem banheiros, em lugar algum. Ate tinha UM (pago, logico), mas esse ja tinha fechado. Realmente, uma joia do planejamento urbano. Seja como for, fui caçar um banheiro na cidade em algum lugar. Atravessei um parque escuro cheio de figuras sinistras, depois uma rua, e acabei em um hotel mais ou menos em frente a estacao. Perguntei se o restaurante estava aberto, e se podia usar o banheiro (tentando disfarcar qual dos dois era mais importante no momento). Resolvida a questao, aproveitei pra trocar a camisa encharcada de suor por outra limpinha (foi quase equivalente a tomar um banho). O restaurante nao estava aberto, mas tinha um barzinho redondo com uma bartender muito gata servindo uisque a um senhor mais velho, e um garoto de uns 15 anos de terno. O senhor ainda perguntou pro garoto, fingindo normalidade: “you want one?”, ao que o garoto responde, cool “no, I’m OK”. Basicamente cheguei bem no meio do rito de passagem do garoto, que tentava impressionar a bartender. Consegui me ver na mesma situacao, na idade dele, entao dei total prioridade pros dois.. mas o velho terminou o drink dele e os dois foram embora.

A bartender era, de fato, muito atraente. Nao só pelos atributos fisicos - cabelo liso e loiro (na altura dos ombros), olhos azuis com um aspecto alegre, sorriso levemente dentuco (mas de uma forma muito sexy), e um belo par de seios bem a mostra pelo decote da camisa preta – mas tambem pela simpatia exuberante. Ela era muito, muito, simpatica. Quis ficar mais uma semana em praga. Um mes, que seja. Me ensinou mais umas frases em tcheco, batemos papo sobre amenidades, mas tivemos uma conexao imediata que ia alem do papinho. Aí o garoto voltou, coitado. Falou umas duas frases, e foi embora dormir. Ou ficou umas 3 horas acordado, pensando no que deveria ter dito, certo de que, se eu nao tivesse atrapalhado, “rolava”. Aí chegaram os chefes dela, e o bar fechou... aí nao teve jeito. Trocamos emails, e fui pegar o meu trem. Melhor assim... se nao tivessemos sido interrompidos, a probabilidade de perder o trem de tanto bater papinho era enorme. Maldito chefe... aposto que rolava.

No trem eu dividi um quarto com um sueco bem gente boa. A cabine é super estreita e alta. Fiquei na cama de cima do beliche, com o ar condicionado perfeitamente apontado pra minha cabeca. Exigiu um certo exercicio de abstracao, mas no final das contas a viagem foi bem tranquila e conseguir dormir boa parte da noite. As 8 da matina tivemos a primeira troca de trem. Ouvi historias de terror de pessoas que perderam a troca e acabaram em outro pais para o qual nao tinham visto, etc. Paramos em uma cidade aonde se falava alemao. Tenso com a troca, fui ver todos os detalhes, e depois fui ao banheiro (pra garantir). Na parede, um grafitti: “metal fucks rap shit / Sig Heil”. Nao faço muita questao de ir pra alemanha, nao...

No segundo trem que eu parei pra escrever isto aqui tudo. Dividi uma cabine com uma mae e filha muito simpaticas (entre si, em tcheco... mas pareciam se dar super bem), uma senhora mal-humorada que eu nao entendi se era relacionada a elas ou nao, e uma popozuda versao tcheca, com direito a calca da gang, bota de cano alto com detalhe de diamantes na borda, e maquiagem de olho diferenciada. Essa ultima ficava recebendo ligacoes do namorado que ficava enchendo o saco. Bom, mas é isso por hora. A plha do meu netbook novo ta acabando, e a minha tambem. Vou tentar descansar um pouco no terceiro trem, antes de chegar a Zagreb.

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